UV.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Sou Pietà. A Maria de mármore fadada a carregar nos braços as carnes sem vibração de um filho que de fato nuca foi seu. Você de fato nunca foi meu, apesar de estar em mim, dentro de mim. Ao sabor do meu desejo. Sempre quando me esqueço. E me entrego... E me regenero. Não cabem cenas, não há clemência. Eu preciso de algo que me entorpeça da realidade. Mas não pode aparecer no exame. Então escolho isso. Escolho você. Não sou essa coisa louca, desfreada. Não sou ninfomaníaca. Não... Sou carente, depressiva, devo favores ao silencio... E já enjoei do gosto das minhas lágrimas, não as bebo mais: deixo escorrer direto até molharem meus seios. Limpo-os percebendo sua forma, então me lembro e logo depois me esqueço... E me entrego, e aproveito, e me delicio, e depois acaba. A gente levanta e vai embora. Você não dorme ao meu lado, me abraçando em concha do jeito que eu gosto. Você vai. Você passa. Eu fico. Fico ali, no momento anterior ao delírio. Volto ao ponto inicial. A roda gigante que me tira debaixo, me eleva e em seguida me traz abaixo novamente, nunca sem deixar aquela nostalgia que me faz voltar a ela. A fonte que eu bebo se esgota. Sou nômade das coisas abstratas. Sou beduína de um deserto de monotonia que procura água pouca e escassa, nunca suficiente para estocar, sempre a conta da saciedade. E assim sobrevivo. E assim eu vivo. Tenho medo de ter me acostumado. Pode tudo ainda ser apenas um conto inventado. (...). Mas sou Pietà, e serei eu quem será retratada em pedra, com um amor morto nos braços.
Ultraviolet.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Uma janela aberta, e o vento frio corta o fio da palavra. Não há desengano capaz de deter o nada, e a dor é a única forma de vida. Madness. Tudo é cíclico, mas isso não impede que desça ao abismo. Não, não, não. Conjunção. Reinventa quem eu sou / faz denovo aparecer o velho. Aquela criança que não sabia, por isso era feliz. O sentido é vago, o paladar é amargo. É tudo ato. É tudo vida. É tudo acaso. Beleza perdida em meio ao caos.
Ultraviolet.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
ANULAÇÃO POR ACRÉSSIMO
Eu voltei, e você não estava mais. Eu cheguei, e você foi embora. Triste fado, grande gafe, não funcionou nossa válvula de escape. Quando eu era névoa inóspita você me buscou e por tantas vezes desejou a junção fatal. Mas eu era espectro imaterial, indiferente a sua vontade. Eu flutuava em outras dimensões, habitava outros corações, enquanto você me oferecia o seu bem ao meu alcance. Agora, retomando a forma, me materializo perante você. Coloco meu corpo ao dispor do teu desejo, deixo que você aprecie todo o gosto dos beijos. Não funciona como deveria. Talvez nosso tempo já tenha passado ou até nem tenha chegado. O encanto se quebrou. Eu não quero viver um amor adormecido, molengo e inconsistente. Você pulou fora na hora certa. Então continuarei só, vagando por espaços que não me cabem. Nem tudo é como queremos.
Ultraviolet.
sábado, 15 de maio de 2010
Do dia 20 ao dia 15 sem palavras. A única lembrança é o teu suor que ardia meu rosto. Nada mais. Nenhum motivo de alegria. Nenhuma nota de dor pra quebrar a monotonia. Nada. Nada é enorme. Do tamanho do grito que eu engulo todos os dias. Do teor do ar tóxico que me sufoca. Do número de palavras que eu não pronuncio. Da beleza da letra que eu mesma não compreendo. Da transparência da inspiração que eu não tenho. Do limite que eu não enxergo. Do sentido que inexiste. Do meu eu cada vez mais vago. Do meu verso em frangalho.
Ultraviolet.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Ultraviolet (Light My Way)
"Sometimes I feel like I don't know
Sometimes I feel like checking out.
I wanna get it wrong
Can't always be strong
And love, it won't be long.
Oh, sugar, don't you cry.
Oh, child, wipe the tears from your eyes.
You know I need you to be strong
And the day it is dark, as the night is long.
Feel like trash, you make me feel clean.
I'm in the black, can't see or be seen.
Baby, baby, baby, light my way.
Alright now, baby, baby, baby, light my way.
You bury your treasure where it can't be found
But your love is a secret that's been passed around.
There is a silence that comes to a house
Where no-one can sleep.
I guess it's the price of love;
I know it's not cheap.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way
Baby, baby, baby, light my way.
I remember when we could sleep on stones.
Now we lie together in whispers and moans.
When I was all messed up and I heard opera in my head
Your love was a light bulb hanging over my bed.
Baby, baby, baby, light my way.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way."
Sometimes I feel like checking out.
I wanna get it wrong
Can't always be strong
And love, it won't be long.
Oh, sugar, don't you cry.
Oh, child, wipe the tears from your eyes.
You know I need you to be strong
And the day it is dark, as the night is long.
Feel like trash, you make me feel clean.
I'm in the black, can't see or be seen.
Baby, baby, baby, light my way.
Alright now, baby, baby, baby, light my way.
You bury your treasure where it can't be found
But your love is a secret that's been passed around.
There is a silence that comes to a house
Where no-one can sleep.
I guess it's the price of love;
I know it's not cheap.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way
Baby, baby, baby, light my way.
I remember when we could sleep on stones.
Now we lie together in whispers and moans.
When I was all messed up and I heard opera in my head
Your love was a light bulb hanging over my bed.
Baby, baby, baby, light my way.
Oh, come on, baby, baby, baby, light my way."
domingo, 11 de abril de 2010
CONFISSÕES II
Tenho nas faces a deformidade causada pelo descaso. E essas lágrimas que me confundem em sua constituição: a dor de cada queda me faz crer que sejam de vidro. Produto do abandono são essas linhas que escrevo, em letras miúdas, destoantes daquela normal, como que também abstraídas de sentido e de si. Agora procuro algo que não sei exatamente o que é. Talvez queira transformar essa mágoa que me consome em algo menos tóxico. A dor não passa. Tomada de assalto e mantida sob controle, obrigada a executar procedimentos a despeito da minha vontade. Afronta terrível a uma natureza indomável. Não existo sob ultimatos alheios. A pressão me desintegra, faz de mim bicho acuado, revolto por não ter instrumentos para lutar. Me exponho na esperança de que alguém me veja. Que se enxergue não o que pode ser visto, mas que se olhe além. Grito não para me fazer ouvida, eu não tenho nada a dizer. Só quero que olhos mais atentos observem a essência dessa forma inconsistente. Sem segundas intenções, sem flechas de Cupido. Agora, tudo o que queria era ter a coragem autodestrutiva de Ícaro e, incomunicável como estou, me entregar sem reservas à tragédia. Ao ódio forjado em mim, devolver culpa. Remorso denso e pesado. A constatação do erro tantas vezes anunciado. Eu não quero confissões nem memórias. Quero somente algo definitivo que me livre de uma vez desse mal que me assola todos os dias.
Ultraviolet.
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